A vida é simples e perfeita. Essa é uma lição que os meus 24 aninhos de trilha me trouxeram, e não que eu seja das pessoas menos conflituosas do mundo, mas ter um lado branco e outro negro é, simplesmente, a natureza do meu ser, e foi viver que ensinou isso.
É a falta de entendimento das origens e do que está por vir que gera quantidade farta de angústias, acho que o medo resume boa parte do desconforto. Medo do imperfeito, medo do medo, medo da doença, mais do que da morte.
Sabendo disso, é mais fácil olhar um panorama de dor e tempestade com outros olhos, não menos sofridos, apenas mais conhecedores da sua transitoriedade. Dor vem, dor vai. Eu também. Algumas das manias adquiridas (é sabido que a idade trás junto suas malices) é a de pensar no universo acima das nuvens, na perfeição do ciclo da vida, ou em como estaria tudo em 20 anos...
Já parou pra pensar? Mudança, vertigem, crianças da geração 7y,z ..Brasil potência, Brasil com emprego, educação? Bem, isso já é milagre demasiado. Mas, por ser positiva, só a possibilidade já me cerca de entusiasmo.
Hoje penso em viver 2012 não como se fosse o último ano para estourar o cartão de crédito, mas sim um período para agarrar a vida enquanto ação, para trabalhar e viver com energia. Ser perfeita como a natureza, que está sempre se transformando para manter o equilíbrio.
Se é o tempo que confere sabedoria, viver é nossa única oportunidade!
Beijos de feliz 2012
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Saindo de mim
Quero que minha alma saia de si
Quero te sentir
Quero falar comigo
Tem que ter hora marcada?
Quero saber, porque tanta raiva acumulada?
Fica tudo lá dentro daquele caldeirão, belezas e dores e choros e nadas...
Futuro futuro futuro futuro
Eu me forço a desistir da expectativa, da obrigação, do ter que fugir da morte do vazio
Aceito tudo o que vem, se vem pedrada, chuva
Eu não quero só o bem e o belo
Fracassar é uma opção, mas ter medo não
Ao ritmo da música da modernidade eu vos digo
São monte de vidas mal avaliadas
E se puder eu peço, humilde, escabelada
Por favor, tu, eu quero ser mais amada
Não preciso começar do nada,
Pode ser daqui, escrevendo,
Eu faço questão de estar um pouco presa, um pouco livre,
Um pouco triste,
Um pouco calada,
Sem nunca desviar do foco, olho na estrada
Todo dia lembrar, me pedir,
Pra estar disposta não a observar,
Mas viver grande a vida
Em liberdade.
Não ser como a mosca, que vê a liberdade, mas não pode alcançá-la.
Um dia atrás do outro...
03/11/11
Vivendo um dia atrás do outro, você descobre que fazer todo dia os mesmos caminhos constrói zonas de conforto, nas quais é possível ter uma vida estável, prazerosa, até. Uma outra parte de você morre, sem o movimento. Não há sensibilidade que resista a passar a vida na mesma rua, na mesma casa, do mesmo quarto, com a mesma decoração, com as mesmas pessoas, com a mesma música tocando.
Nessa sucessão, alguma parte de você vai aprendendo que o seu ego te faz de marionete num teatro cansado. Por isso há que se descortinar o novo não idealizado, o novo que quer ser um inédito, pela poesia da batalha ou da dança, conforme se lute ou dance, com o desconhecido.
Quem se sente cansado, acha que é o exterior que está mal pensado, mas na verdade é o jardim da alma sem água. A repetição diminui o espectro criativo – quem tem que inovar precisa se renovar, recriar e expressar.
Era mentira que não há idealização, idealizo desde sempre uma dor que valha a pena doer, mais uma aventura, estar só e tranqüila, sem nenhuma perturbação. Totalmente alheia à ação das pessoas, que podem ser tudo de melhor e pior, na mesma medida.
Poder confiar, mesmo nas que desconfiam, mesmo nas que desprezam, mesmo as que vivem intensamente o dia, mas não amam. Por opção. Tudo idealizado. Nem meu coração é tão grande, nem meu poder de criação tão potente, mas vale sonhar.
Tudo se popularizou, eu me sinto tão produto de massa quanto as havaianas! E não tem nada de sonho nisso. Pensamentos tentam conciliar essa confusão interna/sim sou vida, possibilidades ..Nada - sou um ponto no meio do nada, a vírgula do texto do desconhecido.
Eu sou aquela que olha o povo e não sabe se ri ou se chora, pela divindade alheia ou por aquilo de cruel, sem escolha de nada. Se posso ser uma coisa, só uma de nada?
E todo o resto? E tudo?
Não sei quanto existe de liberdade.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
núvem NEGRA
Pra que este dia tenha um poema vou divagar sobre esta núvem negra,
vou poetizar as lágrimas que caíram sobre este poema
vou gritar aqui fora pelo meu próprio perdão
sou incapaz de te fazer feliz,
sou incapaz de ser feliz
sou incapaz de achar que isso valhe a pena,
minha alma é pequena
daqui uns anos: um átomo a engoliu! Decaí e nem senti
chegou uma crise que me sangra a vida
eu hoje sangro, dolorida
quero te perder deste meu lugar nenhum
eu não sou realmente nada, mas ainda pulso fortemente
minha vibração ecoa eternamente...
só não sei como me responsabilizar
só não vá me culpar...pedindo isso, posso revelar
eu não te quero por que...
é tudo que eu quero.
opções: auto destruição, falta de saber viver, sede de...paixão!
Tu disseste que não tens mais paixão, sobrou só o que?
Tesão?
Isso eu acho...Todo ano tem carnaval.
vou poetizar as lágrimas que caíram sobre este poema
vou gritar aqui fora pelo meu próprio perdão
sou incapaz de te fazer feliz,
sou incapaz de ser feliz
sou incapaz de achar que isso valhe a pena,
minha alma é pequena
daqui uns anos: um átomo a engoliu! Decaí e nem senti
chegou uma crise que me sangra a vida
eu hoje sangro, dolorida
quero te perder deste meu lugar nenhum
eu não sou realmente nada, mas ainda pulso fortemente
minha vibração ecoa eternamente...
só não sei como me responsabilizar
só não vá me culpar...pedindo isso, posso revelar
eu não te quero por que...
é tudo que eu quero.
opções: auto destruição, falta de saber viver, sede de...paixão!
Tu disseste que não tens mais paixão, sobrou só o que?
Tesão?
Isso eu acho...Todo ano tem carnaval.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Quintana
Quintanista eu sou
tal clareza não se encontra facilmente
as palavras são as mesmas, mas trabalhadas arduamente
combinando som e sentido, descrevendo plasticamente, singelamente, belamente,
ele vai construindo um poeta menos tolhido
as palavras certas saem da cartola e revelam profundezas da boa poesia
Cama, palavra onde se fazem amores, se choram dissabores, onde se fazem favores
desenrolar da sexualidade. Quantas dores, tanta subjetividade se desenha na mesma cama
substantivo de 4 letras, um mundo de vida além das letras...
As ciências são inexatas..E a pureza de Quintana supera as palavras.
tal clareza não se encontra facilmente
as palavras são as mesmas, mas trabalhadas arduamente
combinando som e sentido, descrevendo plasticamente, singelamente, belamente,
ele vai construindo um poeta menos tolhido
as palavras certas saem da cartola e revelam profundezas da boa poesia
Cama, palavra onde se fazem amores, se choram dissabores, onde se fazem favores
desenrolar da sexualidade. Quantas dores, tanta subjetividade se desenha na mesma cama
substantivo de 4 letras, um mundo de vida além das letras...
As ciências são inexatas..E a pureza de Quintana supera as palavras.
terça-feira, 31 de maio de 2011
passa, tormenta.
escrevendo, eu não tenho que me ver contigo, pelo menos enquanto redijo, sou livre pra te dizer tudo, do jeito mais vagabundo, ou mais violento, mais cheio de nadas, de espaços, de vírgulas, travessões, pontos que não dizem em absoluto algo produtivo
produtividade é um conceito teu, meu e da natureza...Até as flores produzem frutos,
sem assim quiserem, se assim fizeram, por que mesmo assim sofro tanto? Por que e pra que mudar o que está posto se a quantia de inteligência infinentésima que disponho não diz nada além de fragmentos?
Por que acreditar em alguma coisa? em ti ou em meus pensamentos??
Não te quero mais, não te vejo mais, como um todo...És apenas sombras..Sombras e lamentos.
Saia mesmo, vá saindo com um aceno de chapéu, fingindo ser o juiz e não um réu, da tua própria personalidade.
Se um dia olhares o caminho percorrido e achares algo, são apenas os mesmos julgamentos...
Tomas escolhas e depois a mesma química as julga, e cadê a expansão? Um universo e eu só consigo acreditar em sonhos, desenhos, cores e imaginar...Pois o que há em ti, em mim e em muitos mais, não apetece.
Nem valores, nem sabores. É tudo passageiro. Passa tormenta, passa a vida e passa a morte, e não fica nada.
produtividade é um conceito teu, meu e da natureza...Até as flores produzem frutos,
sem assim quiserem, se assim fizeram, por que mesmo assim sofro tanto? Por que e pra que mudar o que está posto se a quantia de inteligência infinentésima que disponho não diz nada além de fragmentos?
Por que acreditar em alguma coisa? em ti ou em meus pensamentos??
Não te quero mais, não te vejo mais, como um todo...És apenas sombras..Sombras e lamentos.
Saia mesmo, vá saindo com um aceno de chapéu, fingindo ser o juiz e não um réu, da tua própria personalidade.
Se um dia olhares o caminho percorrido e achares algo, são apenas os mesmos julgamentos...
Tomas escolhas e depois a mesma química as julga, e cadê a expansão? Um universo e eu só consigo acreditar em sonhos, desenhos, cores e imaginar...Pois o que há em ti, em mim e em muitos mais, não apetece.
Nem valores, nem sabores. É tudo passageiro. Passa tormenta, passa a vida e passa a morte, e não fica nada.
sem nome
É óbvio tão óbvio
nesta seqüência de espantos
encantos e desencantos
meu pranto rolar como em um poema
sem nome ... sem palavra que o desonre
e simplesmente eu frito minhas batatas,
e sinto o cheiro que penetra em meus cabelos
e o chiado que desencadeia prazeres...tão simples
dizem prejudiciais, mas não preciso de vida sem prejuízos
sem o risco, não há o que quebre o vício destes dias
comuns...ressucitados pelo poema
obrigada a você,
que me tirou do sistema.
nesta seqüência de espantos
encantos e desencantos
meu pranto rolar como em um poema
sem nome ... sem palavra que o desonre
e simplesmente eu frito minhas batatas,
e sinto o cheiro que penetra em meus cabelos
e o chiado que desencadeia prazeres...tão simples
dizem prejudiciais, mas não preciso de vida sem prejuízos
sem o risco, não há o que quebre o vício destes dias
comuns...ressucitados pelo poema
obrigada a você,
que me tirou do sistema.
domingo, 24 de abril de 2011
Ficções
No mercado
Gabriel tentou evitar a mulher, mas estremeceu quando se deparou com aquele par de olhos verdes, que lhe pareceram um pedaço do paraíso. A morena juntou um papel e o entregou a Gabriel sem desviar o olhar, no alto das altas sandálias vermelhas que vestia naquela tarde entendiante de abril.
O olhar da moça transmitiu um desejo tão ardente que Gabriel sentiu-se envergonhado de si mesmo. Era a primeira vez que uma mulher se aproximava dele.
- Obrigado. – Quase que solfejou.
- Leia depois para eu não me envergonhar.. – Disse com malícia a senhora provocante.
- Como é o seu nome?
- É Cláudia, e o seu?
- Gabriel... Me desculpe, eu não sou desse tipo.
- Que tipo?
- É que... Vou ser bem direto com a senhora. Eu sou testemunha de Jeová. Sabe o que é isso?
- Sei. E daí? Você é casado?
- Não. Mas ainda pretendo me casar. Enfim, foi bom conhecer a senhora. Se quiser conhecer a minha igreja fica logo ali.
- Obrigada. Você mora aqui perto?
- Sim...
- Por que não me convida para tomar um chá? Não vou te agarrar nem nada. É que estou tão precisada de companhia. E sinceramente, você parece um cara legal.
- Pode sim. Moro no prédio da frente. Meu apartamento é o 604.
- Bem... Você não se importa de verdade?
- Não, não. Tudo bem. Eu também sou sozinho. Mas espero que a senhora não espere nada de mim. Como lhe disse, não sou desse tipo.
- Então, por favor, me devolve o papel.
- Está bem. Posso ler antes?
- Não. Você sabe do que se tratava. Passa pra cá.
- Está bem. Mas a senhora está no desespero hein?
- Bem... Pode-se dizer que sim... Na verdade, estou na “crise da meia idade”, eu diria. Mas isso eu te conto em outra oportunidade.
- Muito bem, acho que gostei de você. Quer aparecer na minha casa esta tarde?
- Eu só posso antes das seis. Às sete meu marido chega em casa com as crianças e tenho que estar com tudo pronto. Pode ser?
- A senhora está me assustando. Casada e procurando sexo desse jeito?
- Não me chame de senhora. Me recebe às cinco?
- Passa lá.
Chá das cinco
Cláudia atira as sacolas do mercado no balcão e vai para o quarto. As sandálias cobram o seu preço e suas pernas estão cansadas, pedindo um sossego. Cláudia, com seus recém completados 50 anos não abria mão do calçado alto. Era uma questão de honra sair da estatura “de um anão”, como dizia para os filhos quando colocava delicados pés em uma bacia de água quente.
A moça se sentia feliz pela expectativa de conhecer aquele homem que a tinha rejeitado. E pensava, massageando os pés:
- Devo estar pirada. Agora dei em cima de um homem sem um braço que me chamou de desesperada e eu quase implorei para ele me receber na sua casa. Acho que é caso para internação. Que loucura! Mas estou fascinada.
Não havia como negar, por que o próximo passo dela foi iniciar um rito de arrumação já consagrado. Banho delongado, hidratação no corpo, cuidados com o cabelo e com a pele ébano que inebriava os homens. Seus olhos verdes, sua pele negro clara, seu corpo bem desenhado, mesmo pequeno, e o perene salto alto vermelho, eram uma combinação estonteante e conhecida de Cláudia, que usava o seu poder para seduzir homens casualmente. Aquela foi a primeira vez que ela foi evitada.
A história era sempre a mesma, o marido saia, levava os filhos na escola e voltavam só a noite. Nas tardes, ela devia procurar emprego, mas o que ela fazia era bem diferente. Na maior parte dos dias, gastava. Gastava com qualquer coisa. Comida, enfeites para casa, roupinhas. Tudo para, conforme comentava, bem lidar com o tempo. A dificuldade era esconder da família que não tinha nem pensado em arrumar trabalho.
Nos passeios de compras, Cláudia gostava de conhecer homens que a fizessem sentir desejada. O seu esposo, Vander, não mais bastava. Era só um amigo. Mas isso ela nunca expressou verbalmente a ele. Somente alimentava um palco teatral dentro de casa. Era dor de cabeça, era cansaço, ou um filme ou um livro que usava como pretexto. Nada a fazia tirar a roupa para aquele homem que já a possuíra com tanto ardor. Para ela era simplesmente nauseante. Irritante também, e outros adjetivos pejorativos.
Mas Cláudia sabia que o problema era com ela, e não sentia culpa. Apenas aceitara que enquanto pudesse administrar, poderia correr atrás desse prazer passageiro e aproveitar um pouco de fugidia felicidade. Era o que sentia depois que um homem, normalmente mais novo,a desejava e proporcionava um sexo ardente que não conseguia mais ter com Vander. E normalmente, depois que esse momento acabava, ela se aproveitava das lembranças durante semanas, e não voltava a ter contato com a “vítima”, que quase sempre a procurava.
Desta vez, tudo a instigava. Ela deu o bote em um sujeito que nem sabe ao certo por que gostava, que não tinha um braço, e que lhe fez sentir-se envergonhada. Mas por isso mesmo seu faro a chamava. E Cláudia não procurou emprego mais uma tarde. Também não buscou aplacar sua sede de poder sobre os homens. Também não fez compras. Foi tomar chá da tarde.
Amizade tórrida
- Você veio.
- Não me convida para entrar?
- É claro. Não sei se é do seu interesse, mas eu realmente tomo chá. Entre.
- Obrigada.
- Fique a vontade. Sente-se. Eu vou buscar o chá e alguns biscoitos.
Cláudia se senta e fica observando minusciosamente o apartamento de Gabriel. O rapaz, na faixa dos 30 anos, a surpreende.
- Ele realmente deve ser religioso. Essas Bíblias nesta sala devem significar alguma coisa. Deveria fugir enquanto é tempo de ele não me catequizar.
Mas o que mais surpreendeu Cláudia foi um telescópio hiperpotente que ficou visível por causa da porta aberta do quarto.
- Hm, voyeur, sinal de loucura... Fica olhando as vizinhas com aquilo ali. E vem dizer que é Testemunha de Jeová. Ta bom, João sem braço. Esses homens...
Então chega Gabriel equilibrando as chícaras e os biscoitos com o braço .
- Não note a bagunça do meu apartamento. A faxineira não vem há semanas. Não encontro ela.
- Não se preocupe. Mas desculpe lhe perguntar. O que é aquela luneta no seu quarto?
- Hm. Não é luneta, é telescópio. Que bom olho você tem, não? Descobriu rápido o meu segredo...
- Sabia que você não era Testemunha de Jeová coisa nenhuma.
- Aí você se engana. Sou sim... Mas de certa forma sou desajustado entre os praticantes da religião. Enquanto os outros estão casados, ou noivos, eu estou encalhado. Não tenho família. Perdi no acidente de carro em que perdi o braço.
- Nossa, sinto muito...
- Tudo bem. Minha religião e a faculdade me ajudam bastante. Não sei se já viu os meus livros, faço pedagogia. Depois de velho.
- Você não é velho. Eu sou praticamente uma cinquentona aposentada e estou aqui na sua casa. Isso sim é ridículo.
- Não é ridículo. Mas por que você é casada? Hoje em dia tanta gente se separa...
- Essa pergunta é de difícil resposta...
- Tudo bem. Sou “TJ”, mas não sou um chato. Também tenho minhas loucuras.
- Se você fosse analisar, não há como não pirar neste mundo de mentiras. Você me desculpe, mas a sua religião é uma mentira, assim como o meu casamento.
- Nossa, Cláudia é o seu nome não é? A religião assim como o casamento não podem ser definidos como verdade ou mentira por quem nega vivenciá-los como você.
- Vai tentar me converter, agora?
- Não, claro que não...
- Então me diga quem você observa com aquela luneta?
- Pessoas. Pessoas como você e eu. Aparentemente normais.
- Nossa. Você é doidão mesmo. Deixa eu olhar?
- Está bem. Vou deixar. Deixa eu te mostrar. Olha esta menina do prédio da frente. Já descobri uma porção de coisas sobre ela. É um vício. Já pensei até em segui-la nas noitadas.
- Noitadas? Como você sabe que ela faz noitadas?
- Por que eu vejo tudo dela. Ela se arruma e sai, quando não faz um happy hour no apartamento. Ela mora sozinha, apesar de ter só 17 anos.
- Como tu sabes a idade dela?
- Por associação. Ela faz cursinho pré-vestibular. Vai na aula ainda. É a idade clássica.
- Mas é uma adolescente normal. Não me atrai em nada.
- É, mas você não é parâmetro. Deu em cima de um cara sem braço, no super mercado, no meio da tarde!
E riram. Assim começaram uma amizade tórrida. Cláudia acompanhava Gabriel em muitas tardes de chá e observação de Mariana, que se tornava um personagem central de análises, e assunto de horas de conversas, que agora se desenvolviam com Cláudia deitada na cama de Gabriel.
- Tem algo de errado com essa menina. Acho que ela é lésbica. Só anda com meninas masculinizadas.
- E isso lá é algo de novo hoje em dia, Gabriel? Pelo amor de Deus. Pode ser TJ, mas não pode ser ignorante. Você vai trabalhar com pessoas dentro da pedagogia!
- É, pode ser... Mas acho que tem algo a mais de errado. Ela é muito perturbada!
- Perturbada nada! É só uma adolescente que fuma escondido dos pais! E o que você fazia na sua?
- Estudava...Meus pais exigiam – Lacrimejou lembrando da perda.
- Desculpa te lembrar...
- Não, tudo bem, você tem razão, a minha vida não é parâmetro mesmo...
- A minha também não é. Então você me desculpa e estamos conversados.
- Tudo bem, venha cá ganhar um abraço de um braço.
E se abraçaram. Enquanto isso. Mariana chorava e se escabelava ao telefone. E saiu correndo de casa, o que chamou a atenção de Cláudia e Gabriel, já hipnotizados pela vida daquela jovem que, morando sozinha, podia vivenciar com autonomia toda as aventuras da sua adolescência conturbada.
- Nossa, o que será que acontece? Vamos ver?
- Não, Gabriel, já são quase seis horas, tenho que ir arrumar a casa.
- Por favor! Só um dia. Eu também tenho que ir na Igreja.
- Pelo amor de Deus, rapaz, seja prudente! Ela já deve estar longe...
- Está bem. Mas eu estou te dizendo, essa garota tem algum problema sério. Já vi ela na madrugada chorando horas e horas no telefone. Deve estar acontecendo algo de sério. Ela não sai na noite há semanas.
- Tudo bem...Você ta conseguindo me levar no papo, garoto. Vamos lá.
Sem perder o interesse
Eles conseguiram encontrar a menina na parada do ônibus na rua principal. Ela estava em desesperos e não parava de chorar. Gabriel e Cláudia começaram a ficar também apreensivos. O ônibus chegou e eles embarcaram tentando disfarçar que era por causa dela, que falava ao celular e repetia a palavra responsabilidade.
A menina apertou o botão cerca de três quadras após em frente a um bar sem movimentação. Ela correu para dentro do pub. E os dois, na emoção do momento, fizeram o mesmo. Lá dentro, um garçom segurava, com cara de apavorado, um bebê que chorava. Cláudia e Gabriel eram os únicos alem da garota e o garçom que estavam no bar. Sentaram-se em uma das mesas, mas não dava era preciso disfarçar. Eles acompanhavam a cena sem serem percebidos.
- O que será Cláudia?
- É filho dela?
- Só pode...
- Mas quem é este garçom?
- Não ouviste a conversa? Ela pedia pra alguém não deixar, não deixar e não deixar. Pelo jeito era o nenê.
- E o garçom ia ficar?
- Não sei, talvez a pessoa tenha deixado sem ele aceitar.
E após alguns minutos de conversa com o garçom, a menina saiu do bar com a criança nos braços. Quando passou foi possível identificar. A criança tinha os mesmos olhos de quem a levava, e parou de chorar. Cláudia encheu os olhos de lágrimas e não conseguiu segurar. Queria saber mais daquela história. O garçom só fez confirmar. Um menino havia deixado a criança no balcão com o bilhete: a mãe já vem, favor cuidar. Mas em seguida a menina chegara.
- E o resto? Não vamos mais investigar.
- Espera, vai dar na cara.
- Por favor, Gabriel. Vamos lá ajudar. Perguntar se ela precisa de alguma coisa, é uma menina...
- Não, Cláudia. O segredo é só observar os indícios e não saber toda a história pra não desinteressar. A gente já está indo longe demais.
- É, mas a gente já foi longe demais.
- Calma. Só assim, amanhã vai ter mais. Você vai ter sempre algum motivo pra ir lá em casa. Essa é a chave de ser voyeur. Às vezes você se envolve demais com alguma novela que se passa no outro lado da fechadura. E aí, deixa de ser voyeur. E já quer espiar outros aposentos...
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