Theo não conseguia mais se separar do personagem. A peça era uma espécie de crônica teatral da vida de um intelectual peruano. O sintoma era de loucura: a voz do homem passou a residir em sua cabeça, informando tudo o que faria e diria. E o pior era que manifestava opiniões pessoais seguidamente. Não era nada confortável. A relação entre o intérprete e seu retratado começou a ficar tensa. Theo dizia para o invasor: “sai”. Mas ele ficava.
Os meses anteriores, se é que serve como justificativa, haviam sido uma reviravolta na vida de Theo. O diretor não medira esforços para que o espetáculo fosse um sucesso estrondoso. Theo assumira pela primeira vez a responsabilidade do papel principal. A condição eram os ensaios e improvisos incansáveis por horas a fio. Para o preparo do pensador, muitas induções foram feitas por uma equipe trazida somente para fazê-lo incorporar. Incorporar. Era isto que ele teria de fazer. Arrancar lágrimas de si. Arrancar sorrisos da platéia.
Foram meses de ensaios exaustivos. No início, era preciso se concentrar a ponto de quase evadir do próprio corpo. Era necessário estar com a consciência em outro mundo e o corpo aqui. Esses exercícios acabaram por criar caminhos em seu ser que agora pareciam impossíveis de serem dissolvidos apenas com o fechar das cortinas do teatro.
- Quem é este novo eu, agora com um ponto de referência adicional dentro da cabeça? Por que eu não consigo ser simplesmente eu, assim que o espetáculo acaba? - Indignava-se.
Em suma, era simplesmente inviável expulsar o inquilino. Pior ainda, precisava dele, era quem chamava durante a encenação. Era quem, literalmente, o dominava naquele momento. O “momento” era o que de mais importante já acontecera na sua vida. Era aquele intruso convidado que o fazia se sentir maravilhosamente bem ao final da noite.
Enfim, o resultado desejado havia sido obtido. A peça ganhava espaço nos assuntos e nos meios de comunicação das cidades.
- Ninguém me avisou desse “efeitinho colateral”. E eu, fico como? Destronado de meu próprio reino... Quero mesmo é fugir de mim. Que profissão cã! Por isso fazem tanta terapia na classe artística. Se soubesse que interpretar era viver, não tinha entrado nessa. Se eu viver um Mestre Iogue, tudo ótimo. Mas e se eu incorporar Áthila, o flagelo de Deus, o mais bárbaro de todos os bárbaros? Vou sair por aí andando a cavalo e matando gente? - Esbravejava ao contar a situação bizarra aos colegas.
...
Theo começou a freqüentar um terapeuta, mas já começava a achar que a loucura não tinha remédio. Muitas vezes, o personagem entrava pela porta da frente de sua consciência soltando verdades catatônicas.
- O que você acabou de fazer é apenas aquilo que esperam que você faça, e não há absolutamente nenhum pingo de autenticidade na forma como acabou de fingir. Seu atorzinho de merda.
Diante desses comentários ácidos do pensador, se curvava, vendo desnudadas facetas de sua personalidade que jamais conhecera. Torcia pelo fim da temporada, e ao mesmo tempo previa a saudade do seu advogado do diabo, da sua breve fama e da sensação de dever cumprido.
- Será que ele sumiria? Ou o estrago foi permanente? - Indagava.
Depois de um mês de apresentações em diversas cidades, o ator começava gostar das percepções que surgiam em seus pensamentos. Confessou, certa vez, apenas ao seu psicólogo:
- Ser louco, enfim, não é tão ruim assim. Mudar... É algo que todo ator sente atração. É como uma droga que você quer experimentar pelo menos por alguns instantes.
Lembrava-se de uma atriz que havia declarado em uma entrevista que precisava freqüentar o analista cinco vezes por semana para livrar-se dos personagens que criava para si. Questionava se não seria esse o seu caso.
...
A temporada ia chegando ao fim e Theo já estava conformado com o que apelidara de “psicose para fins de trabalho”. Havia criado uma relação de amizade com a voz e sentia-se, até, feliz, pois havia um analista personalizado e sem custos à disposição. Conversava, argumentava consigo e com a voz, que afinal, era ele mesmo, e era outro que, de tanto estudar, conhecera por inteiro.
Afastara a possibilidade da loucura. Era sempre possível atuar, escrever, dormir, sair com os amigos e ter conversas surreais para narrar... O seu próximo personagem seria o menino de O Velho e o Mar. Consolava-lhe o fato de que sua futura companhia era criação de Hemingway.

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