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domingo, 20 de março de 2011

Acabaram as barreiras e os preconceitos...

- Acabaram as barreiras e os preconceitos.
Com esta frase, a diretora encerrou seu discurso de início de ano. A escola admitira 30 alunos não pagantes, o que exigira da direção o comunicado do fato aos pais e alunos tradicionais. As quase 300 crianças que se remexiam nas cadeiras do auditório já não aguentavam de ansiedade. Era quase meio dia e os aplausos choveram mais por estratégia do que por aprovação.
- Não deve ser verdade -, pensava Daniela, que já se imaginava procurando a coordenação para relatar um caso ou outro de segregação. E mesmo que nada acontecesse no ano que começava, em seu interior já sentia inferioridade em relação aos colegas riquinhos, cujas mamães chegavam com suas caminhonetes e sedans na escola. - O meu é o Mercedão - , debochava referindo-se ao ônibus que a conduzia diariamente.
Desde o primeiro dia de aula, a menina já implicara com o jeito de vestir rebuscado das colegas. - Elas acham que vão à festa -, esbravejava com a única pessoa da sua classe com quem se permitiu conversar, Janaína, outra bolsista.
Depois de dois meses, já haviam se cristalizado grupinhos de alunos com bolsa, que almoçavam em uma mesa isolada no bar. Janaína fazia questão de ridicularizar um mauricinho ou patricinha que passasse.
- Hoje ela até que está descente. Ontem ela andava que nem uma pata, de tão alto que era o salto.
E assim transcorria o ano, os bolsistas ajudavam uns aos outros ao máximo para tirarem as melhores notas não apenas por que a escola exigira deles, mas por que ganhavam algo mais com isso. Só assim podiam sentir uma pequena admiração...Ou, ainda mais precisamente, uma certa dependência dos colegas que, apesar de terem um alto poder aquisitivo, não davam valor ao ensino que podiam pagar. Ao final do semestre, os pedidos de explicações e colas eram, por vezes, os primeiros contatos com os colegas. Naquele momento, Janaína e Daniela sabiam que eram melhores em alguma coisa.

2 comentários:

  1. Sei bem como é essa situação, passei algum tempo até me adaptar, hoje reconheço que mudei, por fora mas mudei, porém meu interior segue igual, as vezes penso se será possível voltar e ser uma pessoa como eu sonho em ser, mas acredito que jamais consiga deixar de interpretar esse personagem ridiculo que agora cobiça um celular que pegue WI-FI para poder abrir os e-mail e respondé-los antes e poder estar na frente.... é foda mas quem não se adaptar ta fora!

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  2. Obrigada pelo seu comentário! Acredito que hoje vivemos uma fase em todo dúbia. Apesar de haver cada vez mais possibilidades em todos os sentidos, também nos vemos cada vez mais "obrigados" a muita coisa. E toda esta 'liberdade' apimentada com uma falsa retórica de liberdade e igualdade.

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